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Spotlight: pra que mesmo serve o jornalismo?

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Não que eu seja tendenciosa, mas sempre quando aparece um filme novo sobre jornalismo (não sobre a jornalista solteirona que procura um grande amor e cai em altas confusões), paira uma empolgação geral. Talvez por causa do romantismo que ainda ronda a profissão, coitada, tão maltratada nos últimos tempos. Ainda há olhares apaixonados pelas rotinas do quinto poder e isso tem sido ricamente aproveitado pela indústria de cinema. Lembra de “Nightcrowler” (O Abutre, 2014)? “Spotlight – Segredos Revelados” é um desses filmes que faz você perder o fio da meada enquanto se vira para o lado para conferir se ainda tem pipoca no balde. Ele é rápido, dinâmico e tem muitos personagens, o que pode até dar a impressão de um roteiro um pouco confuso. Mas não é.

A história se passa no jornal local de Boston, o The Boston Globe, e mostra como surgiram os primeiros escândalos de pedofilia dentro da Igreja católica, nos anos 2000, as primeiras investigações e as dificuldades para comprovar os abusos cometidos pelos padres. Repórteres se desdobram para encontrar vítimas adultas que passaram pelo horror de batina e a relação entre eles é algo a se prestar atenção.

Até que ponto pode-se cavoucar uma história tão perturbadora e importante para os rumos da religião? Até onde um repórter pode deixar a própria vida de lado para assumir o papel que, teoricamente, seria da polícia? Uma das coisas mais interessantes no filme – pra quem é jornalista – é ver um jornal local com uma estrutura dos sonhos.

Em tempos em que a imprensa se curva às autoridades que gritam mais alto e se submete aos laços encardidos da influência política, é um respiro relembrar a verdadeira e única função do jornalismo: o questionamento da verdade. “Spotlight” é um recorte histórico fundamental que jamais deve ser esquecido. E como pessoas comuns, a lição que fica é praticamente a mesma: será que a nossa verdade não é, de fato, a verdade que plantaram
dentro de nós?

E pra tantas revelações, pode preparar bastante pipoca sem muito sal. O filme é longo e indigesto para os mais sensíveis… e devotos.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Cidade

Francine Micheli

oitudobem@escconteudo.com

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