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Virei freela e… meus clientes não são o que eu esperava

Quando eu larguei a CLT há quase cinco anos, apenas parecia que eu sabia o que estava fazendo. Uma aparente segurança de querer realizar trabalhos e projetos que eu acreditava muito escondia uma estranha sensação de estar correndo em direção ao mar no inverno de -1 grau celsius. E, não, não larguei tudo porque eu era visionária. Caí no mundo freelancer porque fui demitida e fiquei descaralhada da vida.

11745812_508111929337271_5877400069703267970_nAcredito que o tempo serve como terapia para qualquer profissional freelancer. A gente aprende a lidar com a montanha russa financeira, com a necessidade de vender nosso peixe, com os pais te jogando na cara que você é desempregado e com algo que é tão broxante quanto inevitável: ter uma demanda de serviços que não é bem o que você sonhava pra sua vida.

Sim, porque a gente sai do emprego querendo abrir nosso próprio negócio com uma mistura incoerente de insegurança com vontade de ser o melhor do mundo. Temos portfolio, bons contatos, referências incríveis, vontade de aprender, detestamos os clichês da profissão e: pedidos de orçamento para o laboratório que sintetiza o veneno da mariposa somaliana para uso na indústria de peças de escavadeiras.

Deixando documentado que isso não é desmerecer esse ou aquele mercado e que esse foi só um exemplo fictício, vamos focar no freelancer que sempre desejou trabalhar para o mercado das artes, por exemplo. Receber demandas de um segmento tão alheio ao que sempre desejou significa um certo desconforto inicial, no mínimo. E quem já passou por essa situação sabe bem como é o sentimento de frustração de mirar na Beyoncé e acertar na Rita Cadillac.

Uma das melhores vantagens de ser autônomo é poder, vez ou outra, negar serviço que já cheira a calote. Ou falar um não bem gordo para clientes que nunca estão satisfeitos com nada. Ou recusar o trabalho só pelo fato de não ter afinidade com o perfil do cliente. Assim, ganha-se tempo para ir atrás de outros nichos mais, digamos, parecidos com você. E atingir o seu público-alvo pode levar meses. Anos. Metade de uma vida inteira. Ou, desculpe a franqueza, é também provável que isso nunca aconteça.

Dá um tempo nessa birra

britney-spears-tears-05Essa corrente do faça o que você ama nos deixou mimados. “Ah, se o job não tiver meu perfil, nem faço”. “Ah, se eu me desentender com o cliente, mando passear”. “Ah, não lido bem com cobranças”. Ah, mas também tá cada vez mais caro fazer supermercado, viu? Gasolina e luz aumentaram, comer fora também. Quem precisa comprar fraldas dia sim dia não, então, sabe do tamanho do desespero.

Aí vemos notícias que uma menina de 16 anos descobriu a cura do câncer. Que o recém-formado tal faturou 1 bilhão em dois anos com um aplicativo. Que fulano teve uma ideia genial e é o melhor do mundo. Queremos ser essas pessoas enlouquecidamente porque elas não devem ter que aguentar cliente chato ou serviços meia-boca. Elas são focadas.

Mas entre o que somos e o que queremos ser existe uma longa estrada. E encurtar essa estrada depende de dois fatores: ou caminhar incansavelmente e se acostumar com os calos nos pés num caminho que pode nunca chegar ao fim ou redefinir o que é esse “o que eu quero, na real?”. Por que, exatamente, você quer ser esse profissional que habita suas fantasias?

Fazer o que se gosta para ganhar a vida não significa que você vai acordar todos os dias com passarinhos cantando na sua janela e sair por aí feito a Branca de Neve. Escolher eliminar fatores como carteira assinada, chefes e a cartilha da vida corporativa não quer dizer que sua via será livre de frustrações. Quando se é freelancer, é sim, muito provável que chegue até você não só o que você gostaria, mas clientes que sequer sabem da sua preferência e precisam de sua expertise. Parece óbvio isso, né?

Minha especialidade é o mercado cultural, por exemplo. Mas já atendi empresa montadora de estandes, fabricantes de máquina que faz salsicha, escola de pole dance, indústria de suplemento agrícola e uma infinidade de clientes que aparentemente não entrariam para o meu dream time de serviços. Mas eu juro pra vocês: além de garantir minhas contas pagas e manter minha poupança de viagens anuais, trabalhos como esses me ensinaram coisas diferentes, que nunca ultrapassariam a redoma de vidro na qual eu havia me enfiado com minhas preferências e paixões.technobuffalo-com

Se os clientes chatos estão aí, são eles que podem te proporcionar experiências longe da mesa do computador. O dinheiro pago por eles pode ser revertido em viagens, investimentos para aquele seu projeto paralelo, naquele tratamento para a ansiedade, nas aulas de yoga, no show que você queria tanto ir, no curso legal que você tinha se interessado, quer dizer, em benefícios indiretos que te trazem outro tipo de prazer. E isso também constrói você como profissional. Assim não parece menos doloroso ter clientes não tão legais?

Abre a janela. Desafie-se a fazer jobs que nunca fez. Isso é incrivelmente positivo para o seu processo criativo. Lembre-se daquela (e) ex pelo (a) qual você era louco há alguns anos e que hoje não caberia mais na sua vida. Nossas preferências, às vezes, ajudam a construir mais muros do que pontes no caminho.

*Texto originalmente publicado no Projeto Solo

Francine Micheli

oitudobem@escconteudo.com

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