BLOG

Distintos-tipos-de-comidas-de-juguetes-de-plastico

Você não se incomoda com o mundo de plástico do mercado editorial?

O sonho da minha vida sempre foi trabalhar em revistas. Quando visitei a Editora Abril pela primeira vez, parecia que estava em um desses Meet and Greet da vida. O local foi como uma Avril Lavigne da vida: enquanto eu me descabelava na emoção de estar em um ícone do jornalismo brasileiro, editores não me deram mais do que um oi. De longe. Mesmo com a minha insistência em querer aprender, saber, perguntar.

Não rolou trabalhar lá da maneira que eu gostaria no meus 20 e poucos anos, mas consegui um trabalho em duas revistas de arquitetura e mercado de luxo na minha cidade. Pra vocês terem uma ideia da paixão que eu tinha pelo mercado das revistas, larguei um emprego estável em uma grande empresa como assessora de imprensa e fui lá ganhar bem menos da metade. Escrever era o que me interessava.

A experiência foi muito boa, apesar do salário de três dígitos que pingava com dificuldade na minha conta todo mês. Isso era 2006. Mas, o papo aqui não era pra envergar para o tema das condições de trabalho do jornalista. Meu desabafo é sobre a aparência plastificada das atuais publicações, especialmente as de moda, gastronomia, de arquitetura e decoração.

Almofadas roxas colocadas a 10cm de distância uma da outra (check). Almofadas azuis ao centro das roxas inclinadas a 5 graus (check).

Lembrando meus dias de jornalista da área da arquitetura, tínhamos uma espécie de template mental para escrever os textos. Na redação, muito glamour, muita palavra chique, muito conceito, muita sofisticação, estrangeirismos (francês, porque inglês já andava muito over). Na diagramação, muita fonte pomposa, caligrafias rococós e dourado, muito dourado nas capas. Na fotografia, aí é que pega a minha birra mesmo: as salas e os quartos que apareciam na revista pareciam nunca ter sido habitados. Tudo impecavelmente posicionado, nenhuma poeira, o tapete sem nenhuma ruga, as paredes intocadas. Esteticamente, sim, é isso mesmo, a ideia é mostrar o ambiente o mais bonito e detalhado possível. Uma pena que para ser bonito e detalhado, a vida não deveria passar por aqueles lugares. Não no momento do clique, pelo menos.

Daí que eu sempre vi essas revistas de decoração e arquitetura com desconfiança. Cozinhas planejadas e maravilhosas que parecem ter sido feitas para quem nunca vai cogitar bater um bife sobre aquelas superfícies em laca brilhante. Quartos de crianças tão arrumadinhos que parecem ter sido projetados para pequenos sem braços, pernas e mente de criança. Quartos de casal com tantos travesseiros em cima da cama ornando com a colcha que os dois acabariam desistindo de transar só de pensar no trabalho que vai dar tirar tudo aquilo e arrumar de novo depois.

E as revistas de moda, então? Não precisa nem lembrar aquelas poses reumáticas das modelos, as caras de cólica menstrual, aquela deusa loira de salto, mil e quinhentas pulseiras, maiô com pedraria e maquiagem com olho preto SAINDO DA PISCINA. Quem nunca aproveitou um domingo de sol assim, como uma deusa, não é mesmo? É conceito, tudo bem. É a moda. Tudo bem. A realidade dessas publicações costuma ser bem irreal mesmo.

Miga, pera, me ajuda que a minha segunda bolsa tá escorregando aqui

E então partimos para as revistas de gastronomia. Meu deus do céu, quanto hambúrguer impecável! Nem parece que quando a gente morder vai escorrer maionese no nosso colo. Quanta massa posicionada fio a fio no prato. Nem parece que é aquele espaguete que chicoteia e respinga o molho direto na nossa camiseta branca. Quantas sobremesas colocadas em taças tão pequenas que devem ser servidas só pra quem come açúcar em anos bissextos.

Comida é prazer, gente! Mesmo que seja um prato impecável da mais alta gastronomia, por trás dele existe um chef exausto e cheio de orgulho, um assistente que ralou a vida inteira para trabalhar com culinária, um dono de restaurante com mil histórias de glórias e falências pra contar. Comida é também dividir uma porção de coxinhas com os amigos uma mesa de bar, é brigar por causa de política mordendo uma coxa de frango no domingo, é um jantar com a namorada que toma um banho de shoyu e morre de rir por inexperiência com o hashi, é esperar ansioso a carne sair do forno numa sexta-feira à noite para perguntar o que o pessoal do trabalho achou do tempero. Comida é vida, movimento, sujeira, barulho. Tudo menos aquele hambúrguer montado milimetricamente com o recheio escolhido a dedo, retoque de brilho e saturação no photoshop.

Não tem humanidade nessas revistas. Não tem gente usando os espaços decorados nem devorando com gosto a comida preparada somente para aquela foto que logo mais ruma em direção à lixeira. Não tem gente curtindo os espaços. Não tem gente. É tudo de plástico, como um mundo em paralelo onde coisas são fotografadas para parecer que são outras coisas.

E aí vai um apelo: a forma de comunicar (qualquer coisa que seja) já assumiu mudanças drásticas há muito tempo. Não queremos mais a mentira que nos foi empurrada pela goela abaixo em tantos anos de imprensa tradicional. Queremos ver como se faz as coisas, a beleza do espaço interagindo com as pessoas, gente lambendo os dedos, vida.

Sérgio e Kyle, moradores do Rio de Janeiro que abriram sua casa para o Casa Aberta

Mas nem tudo está perdido. Alguns projetos estão fazendo um lindo papel contra essa padronização plastificada editorial. Um bom exemplo, é o Casa Aberta, feito pelo Rodrigo Ladeira, que mostra a casa e locais de trabalho de pessoas comuns para inspirar pessoas comuns. Coisas lindas feitas com baixo custo e muita criatividade. Outro site que vem com essa pegada mais “de dentro pra fora” é o Histórias de Casa, das designers Bruna Lourenço e Paula Passini. Aqui, a ideia é um pouco mais prática, com dicas de decoração e lifestyle, vale muito a pena conhecer.

E temos que tirar o chapéu também para a revista Casa e Comida que, além de uma diagramação leve e sem nada de pompa, incentiva as receitas afetivas. Recentemente, fizeram um concurso de receitas de família, onde pessoas comuns poderiam enviar as receitas que lhes traziam boas memórias. Foram quase 800 participantes.

Se por um lado, os editoriais ainda cumprem bem o papel didático do jornalismo segmentado, por outro lado, os leitores buscam novas formas de enxergar suas áreas, sejam elas a decoração, a arquitetura, a gastronomia, a moda.

Objetos são só objetos quando não sofrem nenhuma interferência humana. Revistas são só papeis encadernados quando não refletem a vida como ela deve ser: de verdade.

*Texto originalmente publicado no Projeto Solo

Francine Micheli

oitudobem@escconteudo.com

NO COMMENTS

POST A COMMENT